O Inconsciente e o Amor
Amor: Ideologia ou Utopia?

Os discursos sobre o amor que ecoam na contemporaneidade originam-se do período de expansão cultural judaico-cristã, entre os séculos XI e XV. Essa época foi moldada pelo surgimento do amor cortês e, simultaneamente, pela imposição das leis morais da Igreja Católica sobre a união conjugal. Desse cenário, consolidou-se uma dupla herança: de um lado, a visão clerical do amor como um compromisso sagrado e institucional; de outro, a percepção cortês do sentimento como um desejo passional que exige uma atitude devocional.

O que a história nos mostra é que o amor pode se tornar uma ferramenta de poder quando não se questionam as suas condições de igualdade e liberdade; ao mesmo tempo, quando os acordos se tornam leis rígidas e inquestionáveis, a transformação que se espera de um amor é esquecida.

Uma Perspectiva em Crise:

Uma breve história das transformações nos modelos dos relacionamentos e as dificuldades atuais do amor

Nomeamos de "comunicação do inconsciente na relação" a rede de noções fundamentais desenvolvida pela psicanalista Janine Puget, uma das pioneiras na psicanálise de casais na América Latina. Ela introduziu o conceito do vínculo como um terceiro paciente, apontando que uma relação conjugal é muito mais do que a soma de dois indivíduos. Ao  dispor de um espaço no qual o diálogo possa se desenvolver, o casal se afasta de ideias preconcebidas que possuem um do outro, dando lugar à uma percepção mais clara dos limites que contornam a relação. Com efeito, essa dinâmica faz emergir as condições de possibilidade para que a dupla se abra a novas questões nos momentos de conflito ou estagnação, ou seja, a construção do vínculo se torna uma realidade presente. Assim, a terapia para casais não se realiza apenas pela investigação das projeções do passado, mas se direciona a um horizonte inédito na história do relacionamento.


Nossa Abordagem

A partir dessa escuta, a psicanálise opera como uma modalidade de intervenção clínica desprovida de caráter prescritivo ou normativo. Trata-se da sustentação de um espaço estruturado que se abre à hipótese da produção do desejo e da singularidade de cada sujeito, e, do casal como uma unidade relacional sujeito às dinâmicas que os envolvem.

O manejo clínico considera uma temporalidade própria, capaz de integrar as experiências vividas e os efeitos que as pressões da linguagem exercem sobre a realidade das relações presentes.

O Sofrimento na Cultura e os Laços Conjugais

A escassez de tempo compartilhado reflete o ritmo imposto pelas estruturas sociais contemporâneas, reiterando a premissa de que todo sofrimento psíquico é indissociável do contexto de sua época. Partimos do princípio de que os sujeitos buscam construir parcerias balizadas por valores nos quais se reconhecem.

No entanto, o cotidiano frequentemente explicita as contradições inerentes à partilha da vida com o outro. O trabalho clínico debruça-se sobre esses impasses — como, por exemplo, a sustentação da liberdade, da autenticidade e da autonomia em coexistência com o compromisso de lealdade na relação.

O Espaço Clínico e as Expectativas Normativas

Na prática clínica com casais, é frequente a projeção de expectativas jurídico-normativas sobre o processo terapêutico. Muitas vezes, a terapia é buscada como um tribunal para justificar posições e intenções individuais, submetendo o laço a regras rígidas em nome da manutenção do relacionamento, mesmo ao custo da frustração mútua.

Embora o manejo clínico desfaça esse equívoco inicial, reconhecemos que sob essas defesas reside um desejo legítimo de transformação nos modelos de relação.

Essa tendência à normatização replica o que se observa nos modos de organização do trabalho contemporâneo. Em espaços institucionais, formais e informais, a dinâmica laboral frequentemente se aproxima de um ordenamento rígido que serve para justificar posicionamentos e performances.

Frente a isso, nossa abordagem propõe um caminho fundamentado na experiência clínica e em seu potencial de transformação. Essa mudança processual opera na temporalidade própria das relações, viabilizada pela reflexão compartilhada em um ambiente de gradativo arrefecimento de julgamentos estritamente moralizantes.

Acordados Terapia para Casais

Leticia Alves | psicanalista e psicóloga - CRP 06/210499
Gabriel Hirata | psicanalista

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